quinta-feira, 16 de junho de 2011

Computador x Livros

O computador, ao contrário do que se pensava, não salavará as florestas. Dizem que com o computador aumentou o uso do papel em todo o mundo, e não apenas porque a cada novidade eletrônica  lançada no mercado corresponde um manual de  instrução, sem falar numa embalagem de papelão. O computador estimula as pessoas a imprimir coisas. Como hoje qualquer um pode ser editor, paginador e ilustrador  sem  largar o mouse, a tentação de passar sua obra para o papel é quase irrestível. E nada dá uma impressão de permanência como a impressão, ainda menos uma tela ondulante que pode desaparecer com o mero toque numa tecla errada. Mesmo forrando a proverbial gaiola do papagaio, um papel impresso tem mais nobreza e perenidade do que qualquer cristal líquido.
Um livro está operacional no momento em que você o abre. Um disquete dentro de um drive  dentro de um módulo acoplado a um monitor, desde que seja compatível, substitui um livro. Ninguém jamais lhe perguntará que disquetes você levaria para uma ilha deserta. Para os disquete valer um livro, você teria que viajar com um computador e a ilha teria que ter uma usina elétrica ou um revendedor de pilhas, o que a descredenciaria como deserta e invalidaria a enquete.  
Mas desconfio que o que salvrá o livro será o supérfluo, o que não tem nada a ver com contúdo ou conveniência. Até que lancem disquetes com cheiro sintetizado, nada substituirá o cheiro do papel e tinta nas suas duas categorias  inigualáveis, livro novo e livro velho. E nenhuma coleção de disquetes ornamentará  uma sala com o calor e a dignidade de uma estante de livros. a tudo que falta ao admirável mundo da informática, da cibernética, do virtual e do instantâneo, acrescente-lhe isto: falta lombada. No fim, o livro deverá sua sobrevida á decoração de interiores.
(Este texto foi escrito no jornal O Estado de São Paulo, em 02/11/97, e fora leves modificações ele encontra-se hoje bem atual, mesmo porque 14 anos depois, o livro continua em evidência e apesar dos avanços tecnológicos, a profecia deste cronista continua valendo. Bom para os livros, e melhor ainda para que se perpetue o saudável hábito da leitura).

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